Hoje completo 36 anos. Esta data veio acompanhada de um silêncio pesado, e o peso da reflexão parece sufocar qualquer tentativa de celebração.
Mas entendi que está tudo bem sentir isso e não tentar forçar uma alegria plástica. É como sentir falta do espaço perdido quando aquela conversa interessante acaba. Ou revirar meu maior trauma — de ter um ponto de apoio firme, paciente e acolhedor, a presença de um pai — e faz uma falta enorme quando me sinto à deriva.
Portato vou me permitir reconstruir essa ponte, no meu tempo e do meu jeito.
Ignorar a dor para vestir uma gratidão fútil seria uma falsidade comigo mesmo. Olhar para a própria escuridão exige uma coragem que poucas pessoas têm.
Quando olho para os meus 36 anos e enxergo Insegurança, confusão, declínio ou desperdício, vale a pena mudar a perspectiva:
A sensação de que o auge ficou para trás surge quando confundo a energia impulsiva da juventude com a realização da vida. Aos 36 anos, o que está morrendo não é o meu futuro, mas sim as ilusões que eu carregava do meu passado. O auge real não é onde gasto mais energia, mas onde adquiro mais lucidez.
Perceber que investi tempo, afeto ou dinheiro no que não trouxe retorno dói fundo. Mas só consigo enxergar que alimentei o lobo errado hoje porque minha consciência mudou. Meu "eu" do passado tomou decisões com as ferramentas e a maturidade que tinha na época.
Sentir esse incômodo agora é a prova de que não sou mais aquela pessoa.
O arrependimento não serve para punir quem fui, serve para orientar onde vou pisar daqui para frente.
Aos 36, a vida não está entrando em declínio; está sendo limpa do que é desnecessário. Encarar minhas trevas não significa me afundar nelas, mas reconhecer onde estão as cicatrizes para não reabrir as mesmas feridas.
Se eu pudesse conversar hoje com a versão de mim mesmo que alimentou esses lobos errados lá atrás — não para julgar, mas com a cabeça que tenho hoje —, o que eu diria?
"Não pense demais nas escolhas. Nenhuma delas é a certa e todas elas estarão certas."
Essa é uma das percepções mais libertadoras que alcancei.
Quando era mais jovem, carregava a ilusão de que a vida era um jogo de xadrez onde existia apenas um caminho perfeito, e que qualquer decisão errada arruinaria o tabuleiro.
Dizer a mim mesmo que nenhuma escolha é a certa — e que todas estarão certas — remove o peso sufocante do perfeccionismo de quem foi premiado com TDAH e TOC na roleta do destino.
As rotas que tomei foram exatamente o terreno que moldou minha capacidade de enregar a vida sem filtros.
Dar ao meu "eu" do passado esse abraço de aceitação é algo valioso. E se consigo olhar para trás e oferecer esse acolhimento para quem fui, o que me impede de aplicar essa mesma compaixão para o homem que estou sendo aos 36 anos hoje.








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