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Songs About a Young Past

Leonan Carvalho quarta-feira, agosto 19, 2026 , , ,


O suíço escritor, filósofo, produtor e parente distante Alain de Botton resumiu nossa maior armadilha mental em uma linha: 

“O caminho que não escolhemos tem a vantagem injusta de nunca envelhecer.”


Rodar duzentos quilômetros todo final de semana cansa o corpo e desgasta a alma quando a mão que segura o volante é sempre a mesma. Porém eu tinha um exemplo que viveu 20 anos, com 3 filhos e um casamento apaixonado como exemplo,  meu amigo e pai dela. Eu tinha meu trabalho, meu carro comprado com esforço próprio e a rotina repetitiva de cruzar o asfalto a cada quinze dias. Ela estava na faculdade, cercada pela dinâmica da própria família e amigos, e distante de qualquer iniciativa real de dividir o trajeto comigo. O relacionamento já se tinha desfeito por dentro muito antes do luto chegar, eu sentia que estava sustentando muito mais que podia carregar.

Quando o câncer levou o pai dela com uma rapidez avassaladora, seja decência humana, ou covardia, algo dentro de mim me fez ficar. Acompanhar de perto a dor, tentar organizar a rotina prática e ver a família enquanto lidava com a perda foi um fardo pesado pra mim, mas inimaginável  para eles. Eu tentei e muito. Porém sustentar uma relação falecida me cobrava um preço alto da saúde mental; o corpo adoece quando a mente sabe que o ciclo já terminou.

No meio desse cenário cinzento, me aproximei de outra pessoa que me ouvia, dava suporte, me ancorava em uma amizade simples, porém verdadeira. Eu era ouvido sem julgamentos, eu estava no meu limite com o relacionamento com minha família e minha vida pessoal, amizades fragmentadas pelos feriados, finais de semana longe de lá, estava totalmente a deriva e não podia me apoiar na família dela, que foi minha família por muitos anos, não tinha com quem dividir meu fardo.

Minha mãe havia abandonado a casa e deixado minha irmã para trás,  nós 2 não éramos suficientes para sustentar um ao outro, nem financeiramente nem emocionalmente,  mas nos viramos como deu. E eu não podia conversar com minha atual parceira sobre isso pois ela não entendia, já que sempre contou com seus irmãos e sua amorosa mãe em uma parceria sem igual.  E no último ano que estive com eles, não tinha espaço para que eu mostrasse as minha fraquezas também. 

Meus amigos, há muito eu já tinha me distanciado, eu era um estranho, não tinha com quem conversar ou desabafar. Eu até tentava conversar,  falar dos problemas com minha irmã,  até que ela mesmo me deu um basta que não queria ouvir dos meus problemas. De forma egoísta, eu não sabia disso na época e despejava essa expectativa nela. Mas foi esse ato incompreendido que bateu forte e começou a desmoronar os alicerces do nosso relacionamento.

Bastou um único encontro inocente com essa amiga para perceber uma conexão genuína, direta e leve. Havia uma disposição real de construir uma vida ao meu lado, sem os rodeios a que eu estava acostumado. Por não querer prender ninguém a um horizonte confuso, decidi cortar os dois laços de uma vez.

O término do namoro de seis anos aconteceu de forma visceral. Havia um desejo represado depois de um mês de afastamento; um beijo intenso e tenso marcou a despedida definitiva na porta de casa. Voltei sozinho pela estrada sabendo que o corte era a única atitude justa para ambos.

As semanas seguintes trouxeram um silêncio desconfortável. Tentei preencher o vazio com conversas rasas de aplicativo e encontros casuais, mas tudo soava como estática de rádio fora do ar. A mente continuava fixa na mulher que eu havia deixado partir para não machucar nenhuma das duas.

Decidi agir com um plano minucioso. Passei uma semana inteira hospedado a dez quilômetros da casa dela, comprei ingressos para um show na cidade, compartilhei almoços e acompanhei seus treinos na academia. Coloquei as cartas na mesa para mostrar que a minha intenção era real. A aposta funcionou.

Pouco depois de engatarmos o namoro, o mundo fechou com a pandemia. Arrumei minhas malas, acomodei, só voltei para buscar meus gatos, minha geladeira e meu carro e me mudei de vez. Nunca mais voltei a morar na minha cidade natal.

Hoje já conto novos seis anos dessa história. Construí uma vida sólida, com companheirismo e cumplicidade diária sob o mesmo teto. Ainda assim, algumas lembranças antigas aparecem sem pedir licença. Guardo pastas de fotos arquivadas na nuvem e uma playlist duplicada no aplicativo de música; um relicário discreto daquele primeiro amor correspondido da juventude. De tempos em tempos, clico por engano e adiciono uma música nova ali. Deixo a faixa onde caiu, aceitando esse pequeno rastro da memória.

Ver as duas capas idênticas lado a lado dá uma dimensão concreta a esse arquivo pessoal.

De um lado está a versão original criada por ela, até hoje compartilhada comigo; logo abaixo, a cópia renomeada com a sua assinatura. A repetição das quatro imagens na capa funciona como um espelho de duas épocas distintas.

Esse registro resume a mecânica da memória desse passado juvenil à mesma sequência de faixas preservada no aplicativo, agora carregando um título que estabelece a distância exata entre o entusiasmo da juventude e a lucidez da maturidade.

O que Alain de Botton descreveu foi que o caminho que não escolhemos tem a vantagem injusta de nunca envelhecer. O fantasma daquela estrada abandonada não enfrenta contas para pagar, trânsito, discussões banais ou o desgaste do tempo sob o mesmo teto. Ele fica congelado no ápice da urgência e da despedida, da promessa de um "pra sempre" inacabado.

A vida real acontece no chão firme que escolhi construir todos os dias. Ter a mente visitada por essas memórias apenas atesta a intensidade da travessia que me trouxe até aqui. Olho para trás com respeito pelas decisões difíceis que tomei, sabendo que cada curva daquela estrada serviu para me colocar exatamente onde pertenço, na reciprocidade justa.

 
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